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Reflexões Sobre o
Goticismo nos Dias de Hoje |
"Pertencemos
a um grupo não só porque nascemos nele, não apenas por
confessarmos pertencer a ele e, por último, não porque
lhe prestamos nossa lealdade e fidelidade, mas
principalmente porque vemos o mundo e certas coisas no
mundo da maneira como ele vê".
(Mannhein, 1960. Sociólogo)
Este pequeno ensaio visa esclarecer algo sobre o goticismo
e o movimento gótico moderno, a fim de desmistificar o
tema ao público leigo e especialmente refletir, junto aos
góticos, sobre as diferenças mais marcantes que revelam
o contraste existente entre aqueles se confessam como tal.
Em termos gerais poderíamos definir o goticismo como uma
visão romântica, surrealista e medieval do mundo e da
vida, entre outras características. Essa maneira de
perceber as coisas conduz a um jeito de ser, que pode
exteriorizar-se na estética pessoal e em alguns costumes
associados aos góticos. Isso leva à conclusão de que
uma pessoa "gótica" o é em seu interior, sendo
que isso não necessariamente irá se manifestar em seu
exterior. Vários motivos podem justificar essa ausência
de manifestação, entre eles a pressão da família, da
comunidade local (costumes) ou até mesmo uma opção própria
pelo anonimato. Pode ainda a pessoa "gótica" não
sentir essa necessidade, simplesmente; embora as pessoas
mais próximas provavelmente notarão essas características
de maneira a não julgarem algo "anormal".
O romantismo é uma característica essencial do
goticismo. Esse romantismo não está associado
necessariamente a enlaces afetivos dirigidos a uma pessoa,
e sim a um sentimento de extrema intimidade com a natureza
e no encanto com suas características mais belas e terríveis.
Além disso, o romantismo gótico traduz-se também pelo
bem-estar íntimo que a pessoa gótica experimenta. Por
isso muitas vezes os góticos são tidos como pessoas que
gostam da solidão. Isso não é exatamente uma verdade,
ocorre que a pessoa gótica sente-se muito bem consigo
mesma, e por isso lhe apraz os momentos de introspecção.
A solidão não é vista como algo ruim se se sente bem
consigo mesmo.
Para entender a perspectiva do medieval, somos remetidos
à origem do termo gótico, e encontramos então a história
de um dos povos mais peculiares da Idade Média. Os Godos
eram considerados bárbaros ao pensamento romano-cristão,
e figuraram entre os últimos povos a serem
"convertidos". Ocorre então que os Godos
criaram uma percepção muito particular sobre o
cristianismo, encarando-o provavelmente no interior como
apenas mais uma maneira de ver o mundo. A dualidade entre
o bem e o mal, suscitado por Deus e Satã encantava os
Godos, que produziram imensa literatura poética e dramática
a respeito dos mistérios ligados aos problemas filosóficos
suscitados pelas contradições e contrastes dessa nova
percepção. Os Godos, conquistados pelo império de Roma
no início da Idade Média terminaram por devolver o
produto dessas reflexões não apenas na forma de
literatura, mas também na arquitetura espetacular, a
lembrar as catedrais góticas de Reims, Chartres e a mais
conhecida Notre-Dame de Paris (séculos XIII e XIV).
Posteriormente, no século XVI o termo gótico passou a
figurar como sinônimo simplesmente de medieval ou até
mesmo bárbaro (às vezes no sentido do "bom
selvagem" de Rousseau). Quem procurar conhecer melhor
a história dos Godos poderá perceber os elementos hora
do drama, hora do romantismo, hora da melancolia e mesmo
do sentimento de mistério que caracterizava esse povo.
Voltando à concepção moderna do termo goticismo,
acrescenta-se o termo medieval ao romantismo porque a
"visão romântica do mundo" para o gótico é
aquela associada muitas vezes à admiração que os povos
da idade média tinham para o desconhecido. Em outras
palavras, o gótico observa com uma grande dose de encanto
pessoal o mistério, especialmente os mistérios ligados
às questões mais fundamentais sobre nossa existência e
o mundo. Num exemplo, observar um céu estrelado é
testemunhar uma grandiosidade que maravilha a um espírito
sensível. Certamente que algo assim não foi privilégio
único da Idade Média, no entanto aos povos medievais a
ignorância em muitos campos e a fertilidade da imaginação
facilitava essa visão poética que, sabemos,
exteriorizou-se numa busca geralmente acompanhada por
descrições fabulosas de um mundo povoado por seres
estranhos, anjos e demônios, mapas antigos descrevendo
locais de monstros marítimos, magia, alquimia, castelos e
momentos épicos. É esse "romantismo medieval"
que caracteriza a pessoa gótica.
É bom mencionar que para um gótico a Ciência, com todas
as suas descobertas, não faz diminuir a beleza estética
ou mesmo o sentimento de mistério que caracteriza a visão
romântica do mundo. Importante frisar isso porque, em um
exemplo, para algumas pessoas a explicação de um
psiquiatra sobre como os hormônios aparentemente
"guiam" o sentimento de paixão entre duas
pessoas parece tornar as coisas mais
"cinzentas", ou que conhecer os detalhes físicos
implicados na visualização de um arco-íris o torna
menos belo. Ao contrário, um gótico busca conciliar o
conhecimento com a emoção. Saber que o Sol é uma esfera
de hélio em reação nuclear não tira o encanto de
observar a chuva de raios que ocorre quando sua luz se
reflete nas ondas de um rio. O conhecimento e o
refinamento cultural é algo que deve ser sempre buscado.
Aliás, a ampliação da percepção e conceituação da
"realidade" trazida pela Ciência não deve
significar outra coisa senão horizontes mais fecundos,
como um monte mais alto (ou apenas outro monte, para
alguns) com o qual acrescentam-se outras
"miradas" para apreciar e enamorar-se com a
natureza em diversificados níveis.
Sendo possível a conciliação do romantismo e do
conhecimento, podemos recorrer à imaginação e à
criatividade capazes de proporcionar o prazer estético,
enunciando o surrealismo como característica apreciada (e
às vezes vivida) pelos góticos. Os devaneios da imaginação
sem preconceitos geram formas-de-pensamento
diversificadas, e a libertação dos grilhões de uma
moral religiosa do senso-comum permite que se ouse obter
prazer em tais noções, por mais que sejam consideradas
profanas.
Chegamos agora a ponto de considerar o resultado de tudo
isso dentro da esfera teológica. Não temos ainda nenhuma
pesquisa verdadeira feita para se verificar a concepção
religiosa dos góticos, no entanto a soma das características
citadas até o momento pode nos dar uma pista, à qual
irei somar minha experiência pessoal de vivência entre
os góticos. Como era de se esperar, entre os góticos
figuram um pequeno número de cristãos (católicos ou
esotéricos) e satanistas (satanismo moderno de Lavey em
sua maioria absoluta e satanismo tradicional em minoria) e
um maior número de agnósticos (livres-pensadores e deístas),
ocultistas e wiccans, entre outros gêneros híbridos
destes.
Melancolia Gótica:
O senso-comum parece encarar os góticos como pessoas
melancólicas, às vezes depressivas. Isso não é verdade
para a depressão (não de forma vinculante), mas pode ser
verdade se ajustarmos o conceito de melancolia para aquilo
que os próprios góticos traduzem. Por melancolia gótica
pode-se pensar num sentimento de paz tão interior que
muitas vezes dispensa a necessidade frenética de
manifestações exteriores. O sentimento de reflexão ou
simplesmente de contemplação traz a necessidade de uma
quietude que é fundamental para a sedimentação daquilo
que toca em nossa sensibilidade. Isso pode ser uma música
de caráter nostálgico, a vivência interior de algumas
memórias, a autocontemplação ou mesmo a catarse
resultante a observação de um cenário sensibilizante.
Algo como acordar, quando muito cedo, abrir as janelas e
sentir aquele frio de certa forma regenerador mesmo que
"aparentemente" desconfortável (pulsão de
vida), e notar um céu cinzento do qual caem minúsculas
gotas de sereno. Ou ainda saudade. Saudade de tempos que
nunca se viveu, passados, ao lembrar ícones que nos
transportam pelas viagens da mente aos imemoriais tempos
antigos ou, porque não, futuros?
Enfim, alguns sentimentos podem não ser exatamente a
melhor descrição do que as pessoas chamariam de
"bom", no entanto eles são as coisas que mais
nos dão a certeza de estarmos vivos. E isso acaba gerando
uma ambivalência que é apreciada sobremaneira pelo gótico.
Por isso, quando um gótico às vezes aparentar algo
melancólico saiba que isso não quer dizer que ele está
obrigatoriamente "triste". Pode ser que ele
esteja paradoxalmente feliz em seu estado interior.
Se alguém que você conhece e que se declara gótico
discordar do que escrevi até aqui sobre as características
fundamentais do goticismo, então sugiro que a luz
vermelha do seu ceticismo se acenda na direção de um de
nós dois (eu ou seu amigo). No entanto, as declarações
a seguir são produto mais de uma reflexão pessoal com
base na experiência do que um tratado que aspire à
exatidão, e como vou ousar em uma questão relativa a
fatos existentes mas pouco debatidas entre os góticos é
esperado que isso renda controvérsia.
Vimos nos parágrafos anteriores que o goticismo é
caracterizado por um modo de se perceber o mundo e a vida,
ou seja, não é obrigatório que alguém exteriorize isso
no vestuário ou em atitudes imutáveis. Isso também leva
a consideração de que alguém pode ter uma personalidade
gótica, mas nem mesmo se dar conta disso (relacionando-a
ao goticismo). Em outras palavras, pode haver pessoas que
tenham esse sentimento gótico, o romantismo, o prazer estético
pelo clássico e medieval e ao mesmo tempo pelo
surrealismo, e ainda assim não ter sequer ouvido falar de
"góticos". No entanto, parece sensato aos que
tem o conhecimento sobre os góticos caracterizar, ao
menos para si, essa pessoa como uma pessoa de índole gótica.
Não sou chegado a "evidências anedóticas"
(casos pessoais) para exemplificar argumentos, mas dessa
vez e apenas em função didática vou quebrar o
protocolo. Desde meus 12 anos, aproximadamente, comecei a
me interessar pelo oculto. Não necessariamente
"ocultismo", mas aquela "admiração socrática"
com o que me pareciam mistérios dignos da minha mais pura
curiosidade. Subsidiariamente a isso um sentimento
interior às vezes de melancolia, às vezes de euforia me
assolava ao contemplar alguns fatos da vida dos quais eu
era bem mais ignorante que hoje. Eu gostava de diversos
tipos de cores de roupas, mas me interessava muito mais
pelas de cor branca e de cor preta. Jamais roupa com
estampa. Cheguei a ser apelidado, aos 14 anos, de
"Luto" na sala de aula que freqüentava.
Confesso que me sentia diferente não por isso, mas porque
algumas coisas pareciam me chocar mais do que chocavam à
maioria. Eu parecia ser mais sensível aos apelos do
drama, da alegria e especialmente da dor e tristeza das
outras pessoas. Com 15 anos, morando em praia e já então
tendo me convencido a abandonar as roupas escuras, conheci
algumas pessoas que se intitulavam "góticas", e
com estes tive o sentimento de ter "me
encontrado". Hoje em dia, com 27 anos, moro numa
cidade em que não encontrei nenhum grupo que se intitule
assim, mas é certo que esse sentimento que sempre houve
em mim me acompanha.
Conheci sim outras pessoas, mais ou menos parecidas, e que
partilham comigo esse sentimento que caracteriza os góticos.
Algumas dessas pessoas com 40, outras com 50 anos, e que
parecem expressar no olhar um sentimento de busca e ao
mesmo tempo de romantismo, da opção estética
relacionada ao medieval e da atitude mental que não
ignora os conceitos pós-modernos e o surrealismo. Para
essas pessoas, o vestuário preto, o branco ou em estilo
simplesmente "clássico" ou ainda "roupas
sem estampa" parecem fazê-las recordar de
sentimentos que antecedem a própria existência (o que
lembra a melancolia gótica).
Esse é o ponto crítico, onde ao meu ver faz-se necessário
repensar conceitos. As pessoas góticas que conheci
concordariam plenamente comigo que os exemplos que citei
franqueiam sem sombra de dúvidas as características do
goticismo. Como afirmou o sociólogo Mannhein em 1960,
citado na introdução deste ensaio, pertence-se muito
mais a um grupo por ver as coisas como ele vê do que por
se "auto-intitular" ou ser
"reconhecido" como tal.
Eu não conheci todos os góticos que existem, mas ao
contrastar as pessoas que intitulam como tal saltam-nos à
vista questões que ao meu ver merecem uma reflexão.
O Movimento Gótico e o Goticismo Individual:
Percebemos que há duas maneiras de se vivenciar o
goticismo: individualmente, através das características
enunciadas na primeira parte desse ensaio, ou em grupos de
pessoas que se intitulam góticas, grupos esses mais
conhecidos como tribos.
O goticismo individual pode ocorrer tanto pela falta de
conhecimento da existência de uma tribo quanto pela
discordância da pessoa quanto à ideologia disseminada
por um grupo específico. Nesse caso, uma pessoa pode
continuar sendo gótica mesmo optando por não fazer parte
de uma determinada tribo (ou desejando não fazer parte de
qualquer uma delas).
A convivência de "pessoas góticas" nas tribos
permite que, ao menos nos momentos que estão juntas, as
características interiores de cada um possam ganhar
expressões exteriores mais rapidamente. Não há qualquer
temor de repreensão ou discriminações. Pode-se dar vazão
aos sentimentos e pensamentos por mais
"surrealistas" que sejam. Isso leva à
possibilidade da individualização de cada tribo, e também
da deformação desta quando relacionada às características
gerais do goticismo tais como mencionadas na primeira
parte deste ensaio.
Essa é a parte mais crítica de todo esse trabalho, onde
se faz mister refletir a existência de uma divisão ideológica
de razoável proporção, justificando assim a conceituação
de dois "tipos" de góticos que seguem.
Goticismo Clássico (ou Tradicional) e Goticismo
Surrealista (ou Neogoticismo):
Por goticismo clássico ou tradicional tomemos a descrição
mais próxima àquela trabalhada na primeira parte deste
ensaio. Ficando assim, o goticismo clássico é muito mais
um "modo de ver o mundo" do que uma atitude
obrigatória de exteriorizar-se como uma pessoa gótica.
Aqui figuram como personalidades góticas ou artistas do
estilo gótico grandes partes dos escritores da literatura
Romântica, do Drama, do Terror, da arte surreal, dos Clássicos
e Épicos, com destaques para Álvares de Azevedo, Victor
Hugo, Walpole (Séc. XVIII, criador da Gothic Novel), Bran
Stocker (Drácula), Cecília Meireles, Aldous Huxley
(Admirável Mundo Novo) entre uma infinidade de outros.
Vejo importante a distinção entre o goticismo clássico
e um outro tipo de goticismo que é o mais caricaturizado
pelo senso-comum, devido a uma maior exibição dos góticos
surrealistas (ou neogóticos). O goticismo surrealista é
caracterizado por uma presença maior de jovens que,
devido à opção pela vivência em tribos acabou por
tomar uma forma própria de manifestação.
Acontece que muitos desses jovens acabaram fazendo o
caminho contrário ao que normalmente ocorre a uma pessoa
que vê o mundo de acordo com o goticismo tradicional, ou
seja, motivados pela aceitação em um grupo passaram a ir
do exterior para o interior. A minha observação aqui é
que o exterior pode mudar, pode se ajustar a vontades, mas
o interior não muda necessariamente devido a isso.
Ora, sabemos que a maioria dos góticos gosta de cores
escuras para se vestir, mas que isso não é obrigatório
em momento algum. O branco também é uma "cor gótica",
ou então um vestuário clássico qualquer (ou ainda
roupas sem estampa) para falar do goticismo tradicional.
Ainda assim, o vestuário deveria ser uma das questões
menos importantes. Exemplos anteriores (e especialmente a
história dos Godos) nesse texto deixam isso muito
evidente.
No entanto, há uma "crença" que surgiu há
algumas décadas que "gótico só anda de
preto", e essa crença foi amplamente incorporada por
algumas tribos que hoje se destacam mais na qualidade de góticos
surrealistas ou neogóticos. Assim, embora tudo na
personalidade da pessoa pareça indicar que a pessoa seria
um cyber-punk, um black metal ou até mesmo um clubber
(sem qualquer crítica a essas tribos), a pessoa se veste
de preto, pinta os olhos, coloca alguns piercings e passa
a andar com uma tribo de góticos composta na maioria das
vezes por indivíduos que chegaram a esse estágio
exatamente dessa mesma forma!
Então você ocasionalmente assiste uma entrevista com góticos
muito jovens que falam sobre seus costumes de passar a
noite em cemitérios, vestir-se de preto e manifestar
algum tipo de revolta social através de atitudes que nem
sempre são bem recebidas pelos costumes comuns (até aqui
não é problema meu - aliás, nem estou dizendo que se
trata de um "problema").
Meus caros, eu quero deixar claríssimo que não estou
excluindo os góticos surrealistas (ou neogóticos) do que
seria o goticismo universal. Eu nem tenho essa pretensão
e nem teria esse poder, até porque os neogóticos ou
surrealistas são muito mais organizados na forma de
tribos do que os clássicos. Mas eu quero trazer a lume
que passa da hora de uma reflexão de que existem
certamente dois tipos de goticismo que possuem diferenças
tais entre si que justificam uma diferenciação (sem que
isso exclua alguém!)
Não temos dúvidas de que para algumas pessoas, o
conceito de goticismo não passa de algo como "um
grupinho de jovens drogados, vestidos de escuro, cheios de
olheiras, que vivem depressivos conversando com caveiras
em cemitérios e adeptos do sexo bizarro".
E se for preciso eu abandono o conforto da hipocrisia para
enveredar para a necessária rudeza da sinceridade, e
dizer: em alguns casos é isso mesmo! Agora, eu não
pretendo aqui nesse ensaio dizer que isso é feio ou
bonito, não estou aqui para dar lição nenhuma a alguém.
Cada qual com sua consciência. Eu pretendo é deixar
muito claro que se isso existe, também existe um outro
tipo de goticismo que é o que atende mais ao conceito
tradicional da palavra, que remete aos Godos, ao clássico,
ao romântico, ao culto, e ao surreal como a liberdade de
pensamento e de ideologia dominante. Se alguém acha ainda
que isso é "conciliável" com a situação do
neogoticismo então deixo claro que quando me refiro aos góticos
tradicionais ou clássicos estou falando apenas naqueles
cuja natureza da personalidade não combina com o tipo de
atitude consagrada pelo senso-comum ao neogoticismo, tal
como abordado no parágrafo anterior. Ficando assim,
confesso que sou um adepto do goticismo clássico.
Eu gosto de cemitérios. Sim, os cemitérios podem nos
dizer muita coisa sobre a cultura de um local, até mesmo
sobre a religião e a variação da configuração econômica
deste na linha do tempo. Existem cemitérios que contém
obras de arte de grandes escultores e pintores, que
dificilmente se encontra em museus. Os cemitérios me
trazem um sentimento de paz, e até mesmo de reflexão
sobre a vida. Por fim, o cemitério é "gótico"
em essência, devido à concepção artística do mesmo e
ao fato de não ter mudado muito do período medieval, em
alguns locais, ao atual.
Sei que muitos outros góticos clássicos também apreciam
essas características, mas não necessariamente para ir
namorar, conversar ou fazer algum tipo de ritual ou ponto
de encontro no cemitério; o que sabemos ser exatamente o
objetivo de muitas tribos de góticos surrealistas ou neogóticos.
Até aqui também não estou dizendo que os neogóticos
estão certos ou errados nisso, afinal o problema não é
meu. Passa a tornar-se certo incômodo, e isso eu não vou
negar, quando confunde-se as duas expressões do goticismo
como sendo exatamente a mesma (a existência de uma única
forma de goticismo), e acredito que aqui posso contar com
a inteligência de meu leitor para dispensar ainda mais
explicações sobre o motivo disso.
Não estou dizendo também que o goticismo surrealista ou
neogoticismo surgiu a partir do "poser". Na
verdade às vezes eu chego a pensar nisso (alguns amigos
meus defendem ferrenhamente essa possibilidade), mas creio
que hoje em dia o movimento gótico nessa expressão nova
encontra-se estabelecido o suficiente para resistir a essa
observação. Isso leva à conclusão mais óbvia de que
resta então reconhecer isso como uma expressão própria,
cultural e bastante específica do goticismo. Assim como
existe uma outra expressão do goticismo que em termos
ideológicos e de atitude não é compatível com esta,
que é o goticismo clássico ou tradicional.
E ninguém vai precisar morrer ou matar por isso, afinal
percebo que os góticos surrealistas ou neogóticos também
compartilham a característica do refinamento cultural, e
nesse caso é possível uma convivência fraterna entre
essas duas formas muitas vezes antagônicas de goticismo.
O reconhecimento da existência das diferenças e ainda
mais, o respeito a elas é uma conseqüência natural da
cultura.
Não vou "encerrar" esse assunto, fechando-o.
Cada um é livre para discutir essa questão levantada
como quiser. Passarei a seguir a discutir um tópico que
interessa a todos os góticos.
Cultura Gótica:
Creio ter reunido evidências suficientes para concluir
que os góticos (tanto os clássicos quanto os neogóticos)
constituem a tribo mais culta de todo o universo
underground. Há amplas evidências a favor disso (ainda
que alguns góticos clássicos como eu não sejam "do
underground" em concepção).
As produções literárias, artísticas e cinematográficas
acumuladas por muitas décadas e que configuram expressões
do goticismo são em número imensamente superiores a
qualquer outro agrupamento difuso (perdendo para organizações
mais antigas como a Maçonaria e semelhantes, que tiveram
coesão grupal e mais tempo para influenciar culturas).
Eu vejo o goticismo como um dos grandes celeiros da pós-modernidade.
Se o interesse coletivo dos góticos fosse unificado em um
objetivo comum, e devido às características que
configuram o goticismo, se teria força para engendrar
perspectivas críticas que poderiam ser muito úteis para
a sociedade. Num mundo onde a violência parece
transbordar todos os limites, a noção do pensamento e
atitude pacífica dos góticos ressalta seu papel até
mesmo social, como exemplo de possibilidade de tribos
urbanas que podem viver em paz. Aliás, eu vejo o
goticismo como uma expressão viva da liberdade de
pensamento e do respeito à individualidade.
Enfim, onde se parece haver um contraste tão grande entre
o racional e o emocional, e onde fala-se tanto sobre a
escolha entre ser um ou outro, o goticismo traz uma
mensagem de que é possível o conhecimento científico e
a erudição sem a perda do encanto, da poesia e do
romantismo. E de que, numa analogia bem específica mas
que deve ser estendida a todas as outras esferas, tão
importante quanto "aprender a técnica de
pintar" seria aprender a ter prazer com a pintura.
Mesmo como está, o mundo e a vida ainda têm belezas
suficientes para encantar os espíritos sensíveis. Eu
acredito que essa pode ser a nossa grande mensagem, tanto
dos góticos tradicionais quanto dos surrealistas.
Texto de: Peterson Leal

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